extraído de Congrsso em foco
Agripino: “O PFL nunca deveria ter mudado de nome”
Às voltas com a perda de quadros para o PSD, domando uma imensa crise interna, o presidente do DEM, senador José Agripino Maia, tenta dar novo rumo ao seu partido. Nesta entrevista ao Congresso em Foco, ele defende a volta às bandeiras do liberalismo econômico
Uma desnecessária troca de nome e ideologia escamoteada por interesses de líderes. Eis os erros do DEM, por José Agripino
Rudolfo Lago e Edson Sardinha
Em 1998, na reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, o PFL tinha 105 deputados. Hoje, o DEM tem 43 deputados. Ou seja: em 13 anos, de nome novo e na oposição, o partido reduziu-se a menos da metade do que foi em seu auge. E a perda pode ser ainda maior com o assédio que o DEM vem sofrendo após a criação do PSD. Uma das estrelas do partido, administrador da maior vitrine que restou ao DEM, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, deixa o partido para criar sua própria legenda. E leva com ele, entre outros, uma estrela em ascensão: o candidato a vice-presidente da República na chapa oposicionista de José Serra, Índio da Costa (RJ).
Kassab em São Paulo era a vitrine que restava ao DEM depois da prisão e renúncia do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, que arruinou seu governo e a reputação do seu partido em Brasília ao ser flagrado liderando um dos maiores esquemas de corrupção de que já se teve notícia no país.
Problemas pelos estados. Crises herdadas da gestão anterior no partido, de seu primo em segundo grau, deputado Rodrigo Maia (RJ). Desde que assumiu o partido, tentando apagar com a sua experiência os diversos focos de incêndio que encontrou, o senador José Agripino Maia (DEM-RJ) não tem conseguido um minuto de sossego. O emagrecimento do DEM oposicionista em oposição ao PFL governista o amargura. “No Brasil, infelizmente, partidos de oposição têm bem menos chances de sobrevivência”, constata. “Esse é o preço que nós pagamos por sermos oposição”, diz ele.
Para Agripino, porém, não há outra opção para o DEM senão seguir no caminho oposicionista. E aprofundá-lo da melhor forma possível. Na avaliação do senador, o erro cometido foi justamente querer abrandar o discurso e as diferenças do DEM como partido. A própria troca do nome, que tirou da sigla a referência de que o partido defende o liberalismo econômico. Ou seja: defende a interferência mínima do Estado na economia, um capitalismo exercido sem maiores barreiras, uma máquina pública enxuta. Ao trocar de sigla, o DEM escamoteou as suas convicções ideológicas. “Eu sei que essas ideias correspondem ao modo de pensar de um nicho da sociedade. Nós temos que representá-los”, defende Maia. É por esse caminho que o presidente do DEM pensa reerguer seu partido e tirá-lo da atual rota de emagrecimento constante. Na manhã da última segunda-feira (11), foi o que José Agripino Maia defendeu, em entrevista exclusiva ao Congresso em Foco:
Congresso em Foco – Desde que se tornou um partido de oposição, o DEM vem perdendo quadros. Por quê?
José Agripino Maia – O DEM sempre foi um partido de oposição. Ele não se tornou um partido de oposição.
O DEM é o PFL com outro nome. Antes do governo Lula, o PFL era um partido governista. Então, tornou-se oposição.
O Brasil, lamentavelmente, é um país em que os partidos sobrevivem mais quando estão no governo. É, infelizmente, uma constatação que eu faço. Exercer a oposição não é tarefa fácil. E nós estamos exercendo a oposição com muita determinação. Cumprindo o papel democrático ao qual estamos destinados pelo resultado das urnas. É um dever de coerência. O Democratas tem a consciência de que está cumprindo o papel que a democracia lhe reserva. Se é mais fácil você se preservar no governo do que na oposição, estamos pagando o preço de ser oposição.
É por não querer pagar esse preço, de ser oposição, que está sendo criado o PSD, com dissidências vindas do DEM, principalmente?
Se José Serra tivesse ganho a eleição presidencial, esse PSD não estaria em cogitação. Como nós perdemos, o prefeito Kassab está abrindo essa perspectiva, em função de um interesse legítimo que ele tem na política paulista para se fortalecer através de um partido que ele deseja criar. Interesse legítimo, repito. Um partido que deseja criar aproveitando o quê? Um, atraindo pessoas que desejam migrar para a estrutura governista. Dois, atraindo pessoas que têm problemas regionais e que não saem dos partidos em que estão por conta da legislação eleitoral, que tem uma cláusula chamada fidelidade partidária, que impede a migração partidária. O que o governador do Amazonas [Omar Aziz, do PMN], anunciado como prócer do PSD, tem a ver com Kassab? O que o vice-governador da Bahia [Otto Alencar, do PP], umbilicalmente ligado a Jaques Wagner, do PT, tem a ver com Kassab?
O senhor citou dois políticos que não são do DEM ...
Há pouco, foi feita uma festa de adesão ao PSD em Minas Gerais. Quem foi para lá foram basicamente políticos que já estão na base do governo. Incomodados com seus partidos, visando alternativas melhores no PSD. Em São Paulo, por exemplo, saem do DEM e seguem com Kassab dois deputados federais e um estadual. De 14, seguem três. O PSD é um partido que está sendo feito por Kassab, mas que vai ter integrantes não apenas do Democratas, mas de várias outros partidos. Até porque, como Kassab mesmo disse, não é de direita, nem de esquerda, nem de centro. Enfim, é um partido sem nitidez ideológica. Isso não lhe garante muito futuro. E isso vai ficar claro logo.
E o DEM tem nitidez ideológica?
Sempre teve. É só você voltar a vista lá para trás. O PFL foi criado a partir do grupo de governadores do PDS que rompeu com o governo para possibilitar que os seis votos do Colégio Eleitoral de cada governador fosse dado a alguém comprometido com a eleição direta para presidente da República. E esse alguém era Tancredo Neves, não Paulo Maluf. Então, a história do nosso partido se mantém. As conquistas do partido são visíveis. O partido foi quem lutou de verdade contra o aumento da carga tributária, com um ícone visível, que foi a derrubada da CPMF. Se não fosse a ação do Democratas, na época PFL, a CPMF estaria aí até hoje. E a sinalização de que existia um partido político que jogava todas as suas fichas contra esse aumento da carga tributária. O único partido. Porque os outros vieram depois, quando nós já tínhamos fechado questão. A economia brasileira deve muito à queda da CPMF. Não simplesmente pela queda de um tributo. Mas pela sinalização clara de que havia na sociedade um desejo de evitar um aumento de carga tributária. E que havia um partido que jogava todas as suas fichas nessa tese. Nós vamos persistir nas nossas teses a partir de agora. E mostrar aos outros que nós temos as nossas teses. Perguntar aos demais partidos claramente: quais são os seus símbolos. E desnudá-los nesse sentido. Mostrar que nós temos os nossos. Por isso, eu creio que a perspectiva futura para o Democratas, com o aprofundamento das suas teses, com o aumento da nitidez sobre suas bandeiras, é até de crescimento.
No momento da troca do nome, de Partido da Frente Liberal para Democratas, há quem indique um movimento que vai na contra-mão do que o senhor vem defendendo: tirou-se da sigla o que havia de nitidez ideológica para se adotar um nome genérico ...
Para ir direto ao ponto: eu acho que foi um grande erro trocar o nome do partido. Hoje, eu tenho plena convicção disso.
Perdeu a identidade?
Não perdeu a identidade, porque se você mantém o discurso inteiro não vai perder a identidade só porque trocou de nome. Você perde identidade quando perde os valores. Quando a luta é mantida, você não perde a identidade. Mas não havia necessidade de trocar o nome. Trocou-se o nome sem se obter com isso qualquer vantagem.
Que outros erros foram cometidos pelo Democratas?
Não foram exatamente erros. Mas o partido que tem uma bandeira, uma linha ideológica muito nítida, de repente em vez de dar ênfase absoluta à defesa das suas teses, colocou na frente os interesses dos seus líderes. O Democratas tem um trunfo nas mãos. Quem no Brasil não critica o inchaço da máquina administrativa? O tamanho da máquina pública? O aparelhamento do Estado? Quem não apoia a meritocracia? Quantos não pensam como nós? Nós temos que retomar as nossas teses! Mas isso tem de voltar a ser prioridade. É carro-chefe do partido lutar contra o aumento de impostos. E não os interesses de A, B ou Z! A luta contra o gigantismo do Estado, o gasto público de má qualidade. A falta de investimento. A não provisão da infra-estrutura em decorrência disso. O partido que luta contra o aumento da carga de impostos, porque torna o Brasil incompetitivo, ineficiente. Depois da crise nos Estados Unidos, ficou, para mim, claríssimo: vão vencer no mundo os mais eficientes. Os mais eficientes passam por segurança jurídica, por carga tributária baixa, passam pelo tamanho do Estado. Por educação. Se você não tiver quem defenda a compatibilização da defesa do meio ambiente com desenvolvimento, você não terá um país competitivo. O partido precisa colocar suas ideias na frente dos seus líderes. Os líderes precisam ser arautos das ideias do partido, e não o contrário. Aí, haverá compreensão por parte da sociedade da existência de um partido que tem nitidez ideológica.
Os interesses dos líderes ficaram, então, acima das ideias?
Como em qualquer outro partido brasileiro. Temos ideias muito claras, que cabem claramente num nicho da sociedade. Cabem no pensamento de muita gente no Brasil. Mas a prioridade ficou dada a figuras. Como acontece com as figuras do PT, com as figuras do PMDB. Agora, nós queremos nos diferenciar pelas nossas ideias.
Há quem avalie que foi justamente esse debate de modelos, esse debate de ideias, que faltou nas eleições do ano passado ...
Admito que sim. O que faltou no caso de Serra foi uma nitidez maior no campo da oposição das ideias. Mas não adianta fazer agora uma avaliação do passado.
E o que se projeta, então, para a frente, no caso das oposições?
Tudo o que vai pra frente vai ser função do que vai acontecer pra frente. Você não consegue prever. Como o governo estará daqui a um ano? Ninguém consegue prever. Nós temos hoje um recrudescimento claro da inflação. Em função da gastança no ano eleitoral. Por não estar agora usando os remédios corretos.
O governo está falhando no combate à inflação?
O governo insiste em combater a inflação elevando as taxas de juros e com cortes de investimentos. Não vai ao ponto. O ponto é cortar gasto público de má qualidade. É baixar a carga tributária. O ponto é tornar o país eficiente para gerar emprego para as pessoas. Ter produtividade e ter uma inflação sob controle de forma sustentada. Quem é que me assegura – infelizmente, eu espero que não – que a inflação não vai voltar? E aí, o que o governo vai fazer? O governo está sustentado numa boa herança recebida dos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, com o Plano Real, com a inflação sob controle e com o procedimento correto de manutenção do equilíbrio fiscal. Só que agora, na última eleição, uma gastança desmesurada provocou o recrudescimento da inflação. O governo não está fazendo o que devia fazer. O Plano Real foi obtido à custa de choques pesados. A política de responsabilidade fiscal, principalmente. Isso impôs à economia restrições fortes. O governo ainda não ministrou nenhum remédio amargo para conter a inflação. Está com medidas periféricas. Como o governo vai enfrentar esses problemas? Vai continuar artificialmente no mar de rosas em que esteve até agora? E a oposição, vai fazer o quê?
A oposição vai fazer o quê?
A oposição vai combater os erros e vai propor coisas e modelos. Quantos brasileiros não acharam que estávamos certos ao propor como fizemos no apagão do setor aéreo um modelo de parcerias público-privadas, que até agora não foram feitas? Nós vamos continuar denunciando e propondo.
Além da questão do controle da inflação, que avaliação o senhor faz desses primeiros cem dias do governo Dilma?
Houve erros e acertos. Ela cometeu acertos na diplomacia, na política internacional. Ela tem sido moderada no plano pessoal. Mas tem sido leniente nas medidas que precisam ser tomadas para combater a inflação. Os mesmos remedinhos, a mesma Cibalena. A hora não é de Cibalena. A hora é de antibióticos pesados. Ela prometeu coisas e fez o contrário. Prometeu que não ia cortar o PAC, e cortou o PAC. Anunciou um corte de R$ 50 bilhões em investimentos. Prometeu recuperação do salário mínimo e, pela primeira vez, você teve um reajuste de salário mínimo inferior à inflação do período.
O discurso do senador Aécio Neves na semana passada, como se posiciona dentro dessa estratégia que o senhor propõe para o DEM e para a oposição?
Foi o discurso de um homem civilizado. Um homem consagrado no governo de Minas Gerais. O que ele propôs, ele praticou no governo de um enorme estado brasileiro. É um homem que sabe conviver pela via da cordialidade. Mas que tem atitudes e coragem para tomá-las. Foi um primeiro momento de oposição. Eu espero que o governo – que elogiou o discurso e fez apartes favoráveis - ouça com atenção o que a oposição tem a dizer. O importante não é o debate. O importante é que do debate se produzam resultados.
Duas coisas chamaram a atenção no discurso: um retorno à valorização do que foi feito nos governos anteriores ao governo Lula e a crítica ao PT, de que em vários momentos se omitiu ...
Foi a constatação de verdades. Alguém rebateu que o PT votou contra o Plano Real? Alguém rebateu que o PT cumpriu a formulação vinda de Itamar e Fernando Henrique? Alguém rebateu que o país lucrou com as privatizações feitas nos governos passados? O que ele fez foi a constatação de verdades, que não foram refutadas. Que há méritos no governo Lula, é evidente que os há. Mas há equívocos também. Neste momento, estamos assistindo aos efeitos desses equívocos. Pela perigosa e lamentável retomada da inflação.
Ficou estabelecido, a partir do discurso, que Aécio Neves é o candidato das oposições nas próximas eleições?
Claro que não. É o discurso de um líder importante da oposição. De convivência muito agradável conosco, Democratas. Mas o tema definição de candidaturas para 2014 não é ainda tratado. Até porque você estaria desconhecendo que existem dentro dos partidos pretensões legítimas e disposição de ter candidatos próprios. Não há por que antecipar agora um debate que, neste momento, não tem consequência agregadora. O que a oposição tem que buscar agora são temas agregadores
quarta-feira, 13 de abril de 2011
terça-feira, 12 de abril de 2011
EM CEM DIAS PARIU-SE UM BODE - Mara Montezuma
Dilma em 100 dias = inflação doendo no bolso + interferência na Vale do Rio Doce + interferência nas emissoras de TV definindo temas de novelas + censura em jornal + PAC empacado por irregularidades + ameaça de prescrição do mensalão + incentivo a crimes hediondos por legislação frouxa + amizades de governistas com estrangeiros ligados a terroristas...e por aí vai!
Portanto, há que se colocar um bode mal-cheiroso bem no meio da sala dos brasileiros...a empestear o ambiente e desviar as atenções do principal! Assim, nada melhor que , depois de um horrendo massacre numa escola de Realengo - onde está mais do que provado que o facínora comprou a arma de marginais - Sarney propor que Congresso rediscuta o desarmamento dos cidadãos de bem, como se estes fossem o responsável pela violência que assola o país. Sarney propõe tudo que o governo lhe pedir menos discutir a redução da idade penal, a prisão perpétua , o reendurecimento legal para crimes hediondos...ah...isso nunca! Agora vem a ameaça maior: representantes da Igreja Católica já estão a dar idéias para que o governo chegue onde quer, passando por cima da vontade popular : sugerem que o Congresso crie projeto neste sentido a ser votado (leia- se aprovado ) pela casa...passando assim como um trator por cima da vontade popular expressa no resultado do referendo. Bom,depois do que fizeram com a Lei da Ficha Limpa...podemos esperar algo diferente deste governo monopartidário?
Mara Montezuma Assaf
Portanto, há que se colocar um bode mal-cheiroso bem no meio da sala dos brasileiros...a empestear o ambiente e desviar as atenções do principal! Assim, nada melhor que , depois de um horrendo massacre numa escola de Realengo - onde está mais do que provado que o facínora comprou a arma de marginais - Sarney propor que Congresso rediscuta o desarmamento dos cidadãos de bem, como se estes fossem o responsável pela violência que assola o país. Sarney propõe tudo que o governo lhe pedir menos discutir a redução da idade penal, a prisão perpétua , o reendurecimento legal para crimes hediondos...ah...isso nunca! Agora vem a ameaça maior: representantes da Igreja Católica já estão a dar idéias para que o governo chegue onde quer, passando por cima da vontade popular : sugerem que o Congresso crie projeto neste sentido a ser votado (leia- se aprovado ) pela casa...passando assim como um trator por cima da vontade popular expressa no resultado do referendo. Bom,depois do que fizeram com a Lei da Ficha Limpa...podemos esperar algo diferente deste governo monopartidário?
Mara Montezuma Assaf
domingo, 10 de abril de 2011
SE REFORMAREM É PARA PIORAR - João Ubaldo Ribeiro
SE REFORMAREM, É PARA PIORAR
João Ubaldo Ribeiro - O Estado de S.Paulo
Desde que me entendo, ouço falar em reformas e as únicas que lembro ter visto efetivamente realizadas são as ortográficas. Já devo ter pegado umas quatro ou cinco e ainda encontrei muitos livros em orthographias extranhas, na bibliotheca de meu pae. Aprendi a ler no tempo em que a palavra "toda" se escrevia "tôda", para não ser confundida com o nome de uma tal ave, jamais vista por quem quer que seja. Jorge Amado perdeu a paciência, depois de fazer força para se adaptar a diversas ortografias. Uma vez, quando ele estava acabando de redigir um artigo ou prefácio, como sempre incentivando algum escritor novato, eu cheguei e ele me disse, datilografando as últimas palavras do texto, arrancando o papel da máquina e o entregando a mim:
- Ah, ótimo que você apareceu. Bote os acentos nessa merda aí, que eu não tenho mais saco para reaprender a soletrar de cinco em cinco anos.
Talvez eu esteja sendo injusto e tenha presenciado a realização e implantação de alguma reforma não ortográfica. Mas não aquelas que antigamente eram chamadas de "reformas de base" e consideradas essenciais para o desenvolvimento ou até a sobrevivência do País. Reforma agrária, reforma tributária, reforma judicial, reforma administrativa, reforma educacional e por aí se desfiam as benditas reformas, um longuíssimo rosário, impossível de recitar de cor. Ao mencionar-se sua necessidade ou urgência, todos assentem com ares graves - sim, sim, naturalmente, as reformas.
Contudo, passar da anuência à ação é aparentemente impossível. Reforma é uma coisa na qual se fala, mas não se faz. É excelente para comícios e entrevistas, mas não para agir. De vez em quando, um governante diz que fez uma reforma. Se não me engano, o ex-presidente Lula anunciou que fez uma ou duas reformas. Não lembro quais e provavelmente nem ele, são coisas do passado e ninguém viu reforma nenhuma mesmo.
Tenho uma teoria simples a respeito desse assunto. Todas as reformas, de todos os tipos, iriam prejudicar os que ganham com a manutenção do que está aí. Como o País, de cabo a rabo, em todos os níveis, em todas as classes e categorias, é essencialmente corrupto, a corrupção não deixa. Não existe setor da administração pública, novamente em todos os níveis e dimensões, que não seja território de uma ou diversas máfias, algumas das quais institucionalizadas e quase todas alimentadas por uma burocracia pervertida e feita para ensejar propinas, vender influência e fazer proliferar os despachantes e seus equivalentes mais graduados, os chamados consultores - entre estes últimos constando o hoje injustamente esquecido filho de d. Erenice.
Diante da realidade de que há quadrilhas em ação em todos os poderes, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora, não se vai acreditar que os beneficiários de determinado estado de coisas abdicarão de suas vantagens pelos belos olhos de quem quer que seja. Ouso mesmo dizer que, em muitas das áreas mafiosas, quem for fundo demais na investigação e na reforma corre o risco de morrer. São muitas as histórias de assassinatos realizados a mando de algum esquema de corrupção, pelo Brasil afora. Não escapa área nenhuma, a começar, simbolicamente, pelas próprias polícias.
E não escapa, naturalmente, o Congresso Nacional, onde, segundo as más línguas (observem meu uso copioso do adjetivo "alegado", ou quem vai preso sou eu) há alegados ladrões, alegados estelionatários, alegados salafrários e outros alegados, em tamanha fartura que desafia a contagem. Agora o Congresso está entregue à tarefa de realizar a reforma política, todo mundo fingindo que acredita que algo que prejudique os interesses imediatos dos congressistas será aprovado. E que o nosso sistema eleitoral está sendo aperfeiçoado.
Aperfeiçoado para eles. O que eles pretendem chega a parecer brincadeira, mas, infelizmente, não é. Querem, como se sabe, instituir o que já chamam afetuosamente de "listão". O eleitor não votará mais em um candidato, mas na lista elaborada pelo partido, na ordem estabelecida pelo partido. Atualmente, com a lista aberta, pelo menos o eleitor escolhe uma pessoa e essa pessoa, se bem votada, fatalmente se elege. Mas não vai haver mais esse direito. De agora em diante, com a lista fechada, o eleitor escolhe o partido com que se identifica e lhe entrega a escolha dos nomes que serão eleitos.
Só pode ser deboche. Que significa um partido político no Brasil, senão a conglomeração temporária de interesses que raramente são os da nação, mas de grupos, categorias ou indivíduos? Até os programas partidários não passam de florilégios de frases vagas e altissonantes, tais como o combate à desigualdade e a injustiça social, os projetos de inclusão, o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente e outras generalidades, quem ouve um, ouve outro e, se o nome do partido fosse apagado, não haveria quem o distinguisse. Apareceu até um partido que se declara não ser de esquerda, nem de direita, nem de centro. Talvez seja o mais honesto deles todos, por mostrar que reconhece a realidade política brasileira. Aqui nenhum partido quer dizer nada mesmo e podiam usar todos a mesma sigla: PPPPP, Partido Pela Predação do Patrimônio Público, porque tudo o que seus membros aqui almejam é abocanhar a parte deles.
Agora vêm com essa novidade da lista fechada. Se já não nos é permitido dar palpite no uso do nosso dinheiro, daqui a pouco nos tirarão o direito de escolher nossos governantes. Ou seja, seremos mandados pelas organizações oligárquicas e caciquistas dos partidos. Seremos uma "democracia" governada por conluios e manobras escusas. Ou por 171, como queiram.
João Ubaldo Ribeiro - O Estado de S.Paulo
Desde que me entendo, ouço falar em reformas e as únicas que lembro ter visto efetivamente realizadas são as ortográficas. Já devo ter pegado umas quatro ou cinco e ainda encontrei muitos livros em orthographias extranhas, na bibliotheca de meu pae. Aprendi a ler no tempo em que a palavra "toda" se escrevia "tôda", para não ser confundida com o nome de uma tal ave, jamais vista por quem quer que seja. Jorge Amado perdeu a paciência, depois de fazer força para se adaptar a diversas ortografias. Uma vez, quando ele estava acabando de redigir um artigo ou prefácio, como sempre incentivando algum escritor novato, eu cheguei e ele me disse, datilografando as últimas palavras do texto, arrancando o papel da máquina e o entregando a mim:
- Ah, ótimo que você apareceu. Bote os acentos nessa merda aí, que eu não tenho mais saco para reaprender a soletrar de cinco em cinco anos.
Talvez eu esteja sendo injusto e tenha presenciado a realização e implantação de alguma reforma não ortográfica. Mas não aquelas que antigamente eram chamadas de "reformas de base" e consideradas essenciais para o desenvolvimento ou até a sobrevivência do País. Reforma agrária, reforma tributária, reforma judicial, reforma administrativa, reforma educacional e por aí se desfiam as benditas reformas, um longuíssimo rosário, impossível de recitar de cor. Ao mencionar-se sua necessidade ou urgência, todos assentem com ares graves - sim, sim, naturalmente, as reformas.
Contudo, passar da anuência à ação é aparentemente impossível. Reforma é uma coisa na qual se fala, mas não se faz. É excelente para comícios e entrevistas, mas não para agir. De vez em quando, um governante diz que fez uma reforma. Se não me engano, o ex-presidente Lula anunciou que fez uma ou duas reformas. Não lembro quais e provavelmente nem ele, são coisas do passado e ninguém viu reforma nenhuma mesmo.
Tenho uma teoria simples a respeito desse assunto. Todas as reformas, de todos os tipos, iriam prejudicar os que ganham com a manutenção do que está aí. Como o País, de cabo a rabo, em todos os níveis, em todas as classes e categorias, é essencialmente corrupto, a corrupção não deixa. Não existe setor da administração pública, novamente em todos os níveis e dimensões, que não seja território de uma ou diversas máfias, algumas das quais institucionalizadas e quase todas alimentadas por uma burocracia pervertida e feita para ensejar propinas, vender influência e fazer proliferar os despachantes e seus equivalentes mais graduados, os chamados consultores - entre estes últimos constando o hoje injustamente esquecido filho de d. Erenice.
Diante da realidade de que há quadrilhas em ação em todos os poderes, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora, não se vai acreditar que os beneficiários de determinado estado de coisas abdicarão de suas vantagens pelos belos olhos de quem quer que seja. Ouso mesmo dizer que, em muitas das áreas mafiosas, quem for fundo demais na investigação e na reforma corre o risco de morrer. São muitas as histórias de assassinatos realizados a mando de algum esquema de corrupção, pelo Brasil afora. Não escapa área nenhuma, a começar, simbolicamente, pelas próprias polícias.
E não escapa, naturalmente, o Congresso Nacional, onde, segundo as más línguas (observem meu uso copioso do adjetivo "alegado", ou quem vai preso sou eu) há alegados ladrões, alegados estelionatários, alegados salafrários e outros alegados, em tamanha fartura que desafia a contagem. Agora o Congresso está entregue à tarefa de realizar a reforma política, todo mundo fingindo que acredita que algo que prejudique os interesses imediatos dos congressistas será aprovado. E que o nosso sistema eleitoral está sendo aperfeiçoado.
Aperfeiçoado para eles. O que eles pretendem chega a parecer brincadeira, mas, infelizmente, não é. Querem, como se sabe, instituir o que já chamam afetuosamente de "listão". O eleitor não votará mais em um candidato, mas na lista elaborada pelo partido, na ordem estabelecida pelo partido. Atualmente, com a lista aberta, pelo menos o eleitor escolhe uma pessoa e essa pessoa, se bem votada, fatalmente se elege. Mas não vai haver mais esse direito. De agora em diante, com a lista fechada, o eleitor escolhe o partido com que se identifica e lhe entrega a escolha dos nomes que serão eleitos.
Só pode ser deboche. Que significa um partido político no Brasil, senão a conglomeração temporária de interesses que raramente são os da nação, mas de grupos, categorias ou indivíduos? Até os programas partidários não passam de florilégios de frases vagas e altissonantes, tais como o combate à desigualdade e a injustiça social, os projetos de inclusão, o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente e outras generalidades, quem ouve um, ouve outro e, se o nome do partido fosse apagado, não haveria quem o distinguisse. Apareceu até um partido que se declara não ser de esquerda, nem de direita, nem de centro. Talvez seja o mais honesto deles todos, por mostrar que reconhece a realidade política brasileira. Aqui nenhum partido quer dizer nada mesmo e podiam usar todos a mesma sigla: PPPPP, Partido Pela Predação do Patrimônio Público, porque tudo o que seus membros aqui almejam é abocanhar a parte deles.
Agora vêm com essa novidade da lista fechada. Se já não nos é permitido dar palpite no uso do nosso dinheiro, daqui a pouco nos tirarão o direito de escolher nossos governantes. Ou seja, seremos mandados pelas organizações oligárquicas e caciquistas dos partidos. Seremos uma "democracia" governada por conluios e manobras escusas. Ou por 171, como queiram.
NOSSOS BRASILEIRNHOS - Mara Montezuma
NOSSOS BASILEIRINHOS
A respeito ainda do massacre na escola de Realengo, vejo comentários de alguns dizendo que nunca antes neste país tal fato se dera, que este tipo de crime é comum nos EUA... Para ser fiel com a verdade há que se dizer também que os EUA não conseguiram ainda nos superar no número de crimes de mortes que diariamente fornecemos para os jornais, e que nestes somos campeões absolutos...sem nenhuma honra! Crimes coletivos cometidos por esquizofrênicos podem ocorrer em qualquer país do mundo, independemente da legislação que os orientam, porque são pessoas mental e/ou psicologicamente doentes que os cometem. Mas aqui o criminoso brasileiros está incentivado à matança contra brasileiros e brasileirinhos por uma legislação branda, e que alem de tudo o coloca na rua no primeiro feriado de Páscoa, Dia das Mães , dos Pais...mesmo que já não tenha pai ou mãe , que não seja pai ou mãe e nem acredite no coelhinho! Porque nossa presidente chorou publicamente só por estes brasileirinhos quando diariamente eles estão sendo vitimados no Brasil? A melhor reação seria que ela incentivasse o retorno à dureza legal para crimes hediondos, incompreensivelmente abrandada durante a ultima gestão presidencial...aí sim eu a aplaudiria com gosto!
Mara Montezuma Assaf
A respeito ainda do massacre na escola de Realengo, vejo comentários de alguns dizendo que nunca antes neste país tal fato se dera, que este tipo de crime é comum nos EUA... Para ser fiel com a verdade há que se dizer também que os EUA não conseguiram ainda nos superar no número de crimes de mortes que diariamente fornecemos para os jornais, e que nestes somos campeões absolutos...sem nenhuma honra! Crimes coletivos cometidos por esquizofrênicos podem ocorrer em qualquer país do mundo, independemente da legislação que os orientam, porque são pessoas mental e/ou psicologicamente doentes que os cometem. Mas aqui o criminoso brasileiros está incentivado à matança contra brasileiros e brasileirinhos por uma legislação branda, e que alem de tudo o coloca na rua no primeiro feriado de Páscoa, Dia das Mães , dos Pais...mesmo que já não tenha pai ou mãe , que não seja pai ou mãe e nem acredite no coelhinho! Porque nossa presidente chorou publicamente só por estes brasileirinhos quando diariamente eles estão sendo vitimados no Brasil? A melhor reação seria que ela incentivasse o retorno à dureza legal para crimes hediondos, incompreensivelmente abrandada durante a ultima gestão presidencial...aí sim eu a aplaudiria com gosto!
Mara Montezuma Assaf
segunda-feira, 4 de abril de 2011
CONTRIBUIÇÃO DE PIORA - Carlos Alberto Sardenberg
CONTRIBUIÇÃO DE PIORA
Carlos Alberto Sardenberg - O Estado de S.Paulo
Imagine que você tem uma propriedade rural com terras férteis, a uma distância razoável de um centro urbano populoso. Você pode cultivar ali hortifrútis, em associação com vizinhos, para ganhar volume, e abastecer o rico mercado próximo. Problema: não há estradas, apenas picadas pelas quais mal passa um jipe.
Suponha agora que o governo do Estado construa ali uma estrada vicinal, com bom asfalto, larga o suficiente para a passagem de furgões refrigerados. O negócio dos hortifrútis está viabilizado - ou qualquer outro negócio, de flores, por exemplo - e sua propriedade ganhou uma clara valorização.
E há meios de medir esse ganho privado com uma obra pública. Em casos assim, o governo paulista vai cobrar, sim, uma taxa sobre essa valorização - conforme anunciou o secretário estadual da Fazenda, Andrea Calabi, em entrevista ao jornal Valor na terça-feira passada.
O secretário citou outra hipótese. Imagine empresas instaladas em São Caetano, com oferta de transporte apenas local. Então, chega ali ao lado um belo trem de passageiros que parte de São Paulo, capital, e passa por alguns bairros do ABC. Obviamente, pelo menos os terrenos daquelas empresas ganham uma valorização extra. E têm de pagar a taxa.
Parece justo, não é mesmo? Uma contribuição de melhoria pode ser o nome da coisa que o governo quer cobrar. Mas por que o cidadão, as famílias ou as empresas não podem cobrar do Estado uma "contribuição de piora"?
Isso mesmo. O governo provoca malfeitorias específicas e universais. Você construiu sua residência num bairro tranquilo, e depois de um certo tempo sua casa começa a sofrer com enchentes, consequência de obras feitas ou autorizadas pelo Estado. Ou o bairro se tornou um inferno de trânsito, poluição e barulho por causa de uma ocupação desordenada, irregular e não coibida pela autoridade pública.
Para falar a verdade, se ampliarmos o olhar, o Estado no Brasil é mais malfeitor do que benfeitor. Pagamos, por exemplo, impostos elevados para ter um serviço público de saúde universal, gratuito e de qualidade, garantido pela Constituição. Se o governo entrega um serviço insatisfatório e, portanto, não cumpre a Constituição, os cidadãos e contribuintes não têm o direito de cobrar uma indenização, um ressarcimento ou coisa parecida?
Nada menos que 45 milhões de pessoas pagam planos de saúde privados, por não confiarem no Sistema Único de Saúde (SUS), administrado pelo Ministério da Saúde. Aliás, nem o pessoal que cuida do SUS confia no serviço que presta. No ano passado, o Ministério da Saúde gastou cerca de R$ 100 milhões pagando planos de saúde privados para seus funcionários.
Ora, essas pessoas que recorrem ao sistema particular deveriam receber a "contribuição de malfeitoria", pois estão pagando duas vezes pelo direito constitucional: os impostos e as prestações do seguro.
Mas ninguém está pensando nisso. Ao contrário, o ministro da Saúde quer cobrar dos planos de saúde quando algum segurado, por qualquer razão, é atendido pelo SUS.
Isso parece fazer sentido. A entidade de plano de saúde é uma instituição privada, que visa ao lucro. Se o seu segurado, seu cliente, vai ao SUS, então a seguradora deveria indenizar o sistema público. Ou seja, remunerar o SUS pelo serviço prestado, assim como a seguradora paga um hospital privado para que este atenda seu cliente.
Certo?
Errado. O segurado, o cidadão, tem o direito constitucional de ir ao SUS no momento em que quiser. Se ele, por segurança, achar melhor se garantir com um seguro privado, o governo não pode puni-lo por isso.
Sim, punir, porque, se a seguradora ou o plano de saúde precisar remunerar o SUS, isso é custo adicional, que será repassado aos clientes.
O pessoal do governo faz um discurso ideológico: as seguradoras privadas, exploradoras da saúde, querem que o SUS atenda de graça seus segurados.
Mas o segurado é, antes, cidadão. Pagando ou não o plano privado, continua tendo direito ao SUS. Assim como o cidadão que resolve pagar um fundo de pensão privado continua tendo direito ao INSS. Ou como a pessoa que estuda em escola privada mantém o direito de entrar na universidade pública. (Aliás, nem é bom falar; daqui a pouco vão querer proibir.)
Na verdade, essa ideia de cobrar das seguradoras privadas é simplesmente mais uma forma de tomar "contribuição" da sociedade civil. Revela também uma onda de estatismo ou, visto pelo outro lado, uma bronca contra tudo o que é privado, especialmente o bem-sucedido.
Depois da crise global de 2008-2009, iniciada na pátria do capitalismo, o pêndulo voltou para o lado do Estado. Intervenção do Estado na economia passou a ser a saída mágica.
E, de fato, houve muitas intervenções que funcionaram. Mas no Brasil essa onda deu num viés antiprivado e no entendimento de que a visão moderna é entregar estatais e mesmo grandes companhias privadas aos correligionários políticos.
Neokeynesianismo é entregar a vice-presidência da Caixa Econômica Federal ao peemedebista Geddel Vieira Lima porque... ora, porque ele perdeu a eleição e precisa de um cargo para continuar na política.
Enquanto isso, onde estão os aeroportos, por exemplo? A Infraero é outra que deveria nos pagar uma "contribuição de malfeitoria". No meio disso, a presidente Dilma Rousseff anuncia que pretende conceder aeroportos a empresas privadas. É por necessidade, não por ideologia: se deixar por conta dos companheiros, vamos ficar todos amontoados nos estádios e nos aeroportos da Copa.
JORNALISTA
E-MAIL: SARDENBERG@CBN.COM.BR
SITE: WWW.SARDENBERG.COM.BR
Carlos Alberto Sardenberg - O Estado de S.Paulo
Imagine que você tem uma propriedade rural com terras férteis, a uma distância razoável de um centro urbano populoso. Você pode cultivar ali hortifrútis, em associação com vizinhos, para ganhar volume, e abastecer o rico mercado próximo. Problema: não há estradas, apenas picadas pelas quais mal passa um jipe.
Suponha agora que o governo do Estado construa ali uma estrada vicinal, com bom asfalto, larga o suficiente para a passagem de furgões refrigerados. O negócio dos hortifrútis está viabilizado - ou qualquer outro negócio, de flores, por exemplo - e sua propriedade ganhou uma clara valorização.
E há meios de medir esse ganho privado com uma obra pública. Em casos assim, o governo paulista vai cobrar, sim, uma taxa sobre essa valorização - conforme anunciou o secretário estadual da Fazenda, Andrea Calabi, em entrevista ao jornal Valor na terça-feira passada.
O secretário citou outra hipótese. Imagine empresas instaladas em São Caetano, com oferta de transporte apenas local. Então, chega ali ao lado um belo trem de passageiros que parte de São Paulo, capital, e passa por alguns bairros do ABC. Obviamente, pelo menos os terrenos daquelas empresas ganham uma valorização extra. E têm de pagar a taxa.
Parece justo, não é mesmo? Uma contribuição de melhoria pode ser o nome da coisa que o governo quer cobrar. Mas por que o cidadão, as famílias ou as empresas não podem cobrar do Estado uma "contribuição de piora"?
Isso mesmo. O governo provoca malfeitorias específicas e universais. Você construiu sua residência num bairro tranquilo, e depois de um certo tempo sua casa começa a sofrer com enchentes, consequência de obras feitas ou autorizadas pelo Estado. Ou o bairro se tornou um inferno de trânsito, poluição e barulho por causa de uma ocupação desordenada, irregular e não coibida pela autoridade pública.
Para falar a verdade, se ampliarmos o olhar, o Estado no Brasil é mais malfeitor do que benfeitor. Pagamos, por exemplo, impostos elevados para ter um serviço público de saúde universal, gratuito e de qualidade, garantido pela Constituição. Se o governo entrega um serviço insatisfatório e, portanto, não cumpre a Constituição, os cidadãos e contribuintes não têm o direito de cobrar uma indenização, um ressarcimento ou coisa parecida?
Nada menos que 45 milhões de pessoas pagam planos de saúde privados, por não confiarem no Sistema Único de Saúde (SUS), administrado pelo Ministério da Saúde. Aliás, nem o pessoal que cuida do SUS confia no serviço que presta. No ano passado, o Ministério da Saúde gastou cerca de R$ 100 milhões pagando planos de saúde privados para seus funcionários.
Ora, essas pessoas que recorrem ao sistema particular deveriam receber a "contribuição de malfeitoria", pois estão pagando duas vezes pelo direito constitucional: os impostos e as prestações do seguro.
Mas ninguém está pensando nisso. Ao contrário, o ministro da Saúde quer cobrar dos planos de saúde quando algum segurado, por qualquer razão, é atendido pelo SUS.
Isso parece fazer sentido. A entidade de plano de saúde é uma instituição privada, que visa ao lucro. Se o seu segurado, seu cliente, vai ao SUS, então a seguradora deveria indenizar o sistema público. Ou seja, remunerar o SUS pelo serviço prestado, assim como a seguradora paga um hospital privado para que este atenda seu cliente.
Certo?
Errado. O segurado, o cidadão, tem o direito constitucional de ir ao SUS no momento em que quiser. Se ele, por segurança, achar melhor se garantir com um seguro privado, o governo não pode puni-lo por isso.
Sim, punir, porque, se a seguradora ou o plano de saúde precisar remunerar o SUS, isso é custo adicional, que será repassado aos clientes.
O pessoal do governo faz um discurso ideológico: as seguradoras privadas, exploradoras da saúde, querem que o SUS atenda de graça seus segurados.
Mas o segurado é, antes, cidadão. Pagando ou não o plano privado, continua tendo direito ao SUS. Assim como o cidadão que resolve pagar um fundo de pensão privado continua tendo direito ao INSS. Ou como a pessoa que estuda em escola privada mantém o direito de entrar na universidade pública. (Aliás, nem é bom falar; daqui a pouco vão querer proibir.)
Na verdade, essa ideia de cobrar das seguradoras privadas é simplesmente mais uma forma de tomar "contribuição" da sociedade civil. Revela também uma onda de estatismo ou, visto pelo outro lado, uma bronca contra tudo o que é privado, especialmente o bem-sucedido.
Depois da crise global de 2008-2009, iniciada na pátria do capitalismo, o pêndulo voltou para o lado do Estado. Intervenção do Estado na economia passou a ser a saída mágica.
E, de fato, houve muitas intervenções que funcionaram. Mas no Brasil essa onda deu num viés antiprivado e no entendimento de que a visão moderna é entregar estatais e mesmo grandes companhias privadas aos correligionários políticos.
Neokeynesianismo é entregar a vice-presidência da Caixa Econômica Federal ao peemedebista Geddel Vieira Lima porque... ora, porque ele perdeu a eleição e precisa de um cargo para continuar na política.
Enquanto isso, onde estão os aeroportos, por exemplo? A Infraero é outra que deveria nos pagar uma "contribuição de malfeitoria". No meio disso, a presidente Dilma Rousseff anuncia que pretende conceder aeroportos a empresas privadas. É por necessidade, não por ideologia: se deixar por conta dos companheiros, vamos ficar todos amontoados nos estádios e nos aeroportos da Copa.
JORNALISTA
E-MAIL: SARDENBERG@CBN.COM.BR
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domingo, 3 de abril de 2011
OS VERDADEIROS CULPADOS - João Bosco Leal
OS VERDADEIROS CULPADOS
Soube pela imprensa do que eu gostaria muito que fosse uma piada de mal gosto, mas não é, e na última semana do mês de Agosto prescreverá o crime de formação de quadrilha no processo, em andamento no Supremo Tribunal Federal, do chamado "Mensalão do PT".
Com isso, 22 dos 38 acusados estarão livres dessa acusação. Diz a matéria de um dos jornais de maior circulação no país, que pelo cronograma informal do relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, o processo só estaria pronto para ser colocado em pauta no segundo semestre de 2012, mas, em decorrência do período eleitoral, o julgamento ficaria para 2013.
Segundo o jornal, nos últimos meses diversas articulações vêm ocorrendo para contribuir com o esvaziamento do processo, como a indicação do ministro Luiz Fux ao Supremo Tribunal Federal, e a indicação por Dilma Rousseff de mais dois membros da Corte que deve ocorrer antes do julgamento, e integrantes do governo dizem que, para essas indicações, haverá a mesma preocupação com o caso.
Como há dificuldades em obter provas de todas as denúncias, os ministros consideram ser praticamente impossível condenar José Dirceu por corrupção ativa, pois com a prescrição da acusação de formação de quadrilha não haverá mais acusações contra ele.
Percebe-se ainda, claramente, diversas manobras para fortalecer membros do PT réus no processo, como José Genoino e João Paulo Cunha. Como que por provocação, o atual governo, ao que parece, escolheu a dedo onde colocar esses acusados.
José Genoíno assumiu o posto de assessor especial do ministro da defesa Nelson Jobim, justamente aquele que comanda as mesmas Forças Armadas, que no passado o prenderam, armado e em plena floresta, como membro da Guerrilha do Araguaia.
João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, e réu no processo do mensalão, foi reeleito com expressiva votação como deputado por São Paulo, e já assumiu o cargo de Presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.
Como provocação contra tudo o que ainda resta de honesto nesse país, a escolha foi perfeita nos dois casos e, para isso, certamente obtiveram ajuda externa, de membros de fora da cúpula do partido, pois pelo que têm divulgado a imprensa, a grande maioria da cúpula pensante desse partido é mais dedicada a outras especialidades, como a concentração de poder e a corrupção, e o baixo clero restante não teria capacidade para escolher tão bem onde colocar esses membros.
Os brasileiros assistem incrédulos essas ocorrências, e, provavelmente como eu, imaginando o que ocorreria se fossem eles, simples eleitores, que tivessem sido flagrados com dólares na cueca, em operações fraudulentas em bancos, caixas dois, e todos os outros crimes dos quais esse grupo é acusado.
As acusações eram tão graves e consistentes que, à época, mesmo com todos os esforços realizados pelo então Ministro da Justiça, e renomado advogado, Márcio Thomaz Bastos, tornaram insustentável a permanência de José Dirceu, suposto chefe do grupo, na Casa Civil da Presidência da República.
Os réus no processos do "Mensalão do PT", ao invés de serem julgados e, se condenados, serem encarcerados para pagar por seus crimes, estão agregando a seu time outros cidadãos mal intencionados. São a grande maioria dos legisladores, tão ou mais culpados que eles, pois legislam de modo a permitir que crimes que também cometem, ou pretendem cometer, prescrevam sem sequer serem julgados.
João Bosco Leal
Soube pela imprensa do que eu gostaria muito que fosse uma piada de mal gosto, mas não é, e na última semana do mês de Agosto prescreverá o crime de formação de quadrilha no processo, em andamento no Supremo Tribunal Federal, do chamado "Mensalão do PT".
Com isso, 22 dos 38 acusados estarão livres dessa acusação. Diz a matéria de um dos jornais de maior circulação no país, que pelo cronograma informal do relator do processo, ministro Joaquim Barbosa, o processo só estaria pronto para ser colocado em pauta no segundo semestre de 2012, mas, em decorrência do período eleitoral, o julgamento ficaria para 2013.
Segundo o jornal, nos últimos meses diversas articulações vêm ocorrendo para contribuir com o esvaziamento do processo, como a indicação do ministro Luiz Fux ao Supremo Tribunal Federal, e a indicação por Dilma Rousseff de mais dois membros da Corte que deve ocorrer antes do julgamento, e integrantes do governo dizem que, para essas indicações, haverá a mesma preocupação com o caso.
Como há dificuldades em obter provas de todas as denúncias, os ministros consideram ser praticamente impossível condenar José Dirceu por corrupção ativa, pois com a prescrição da acusação de formação de quadrilha não haverá mais acusações contra ele.
Percebe-se ainda, claramente, diversas manobras para fortalecer membros do PT réus no processo, como José Genoino e João Paulo Cunha. Como que por provocação, o atual governo, ao que parece, escolheu a dedo onde colocar esses acusados.
José Genoíno assumiu o posto de assessor especial do ministro da defesa Nelson Jobim, justamente aquele que comanda as mesmas Forças Armadas, que no passado o prenderam, armado e em plena floresta, como membro da Guerrilha do Araguaia.
João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, e réu no processo do mensalão, foi reeleito com expressiva votação como deputado por São Paulo, e já assumiu o cargo de Presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.
Como provocação contra tudo o que ainda resta de honesto nesse país, a escolha foi perfeita nos dois casos e, para isso, certamente obtiveram ajuda externa, de membros de fora da cúpula do partido, pois pelo que têm divulgado a imprensa, a grande maioria da cúpula pensante desse partido é mais dedicada a outras especialidades, como a concentração de poder e a corrupção, e o baixo clero restante não teria capacidade para escolher tão bem onde colocar esses membros.
Os brasileiros assistem incrédulos essas ocorrências, e, provavelmente como eu, imaginando o que ocorreria se fossem eles, simples eleitores, que tivessem sido flagrados com dólares na cueca, em operações fraudulentas em bancos, caixas dois, e todos os outros crimes dos quais esse grupo é acusado.
As acusações eram tão graves e consistentes que, à época, mesmo com todos os esforços realizados pelo então Ministro da Justiça, e renomado advogado, Márcio Thomaz Bastos, tornaram insustentável a permanência de José Dirceu, suposto chefe do grupo, na Casa Civil da Presidência da República.
Os réus no processos do "Mensalão do PT", ao invés de serem julgados e, se condenados, serem encarcerados para pagar por seus crimes, estão agregando a seu time outros cidadãos mal intencionados. São a grande maioria dos legisladores, tão ou mais culpados que eles, pois legislam de modo a permitir que crimes que também cometem, ou pretendem cometer, prescrevam sem sequer serem julgados.
João Bosco Leal
ANÁLISE DO DISCURSO OPOSITOR - Mara Kramer
Analise do discurso opositor
Na semana passada publicamos um artigo sobre o discurso político de Geraldo Alckmin intitulado Alckmin pisou na bola feio http://tinyurl.com/4hwmy2e No dia 29 de março último o governador foi entrevistado na rádio do Jornal Estado de São Paulo http://tinyurl.com/688bdyd e um dos temas abordado foi sua postura como oposição, o que ofereceu um rico material para apreciação de seu pensamento ao qual não pude resistir à tentação de interpretar. A seguir exponho a análise crítica realizada tendo consciência de minhas limitações, pois não sou analista ou cientista política nem estudiosa do assunto. Sempre que escrevo, o faço como uma brasileira, eleitora preocupada com os rumos que nosso país, a qual expõe suas apreciações sobre temas políticos de forma despretensiosa.
A política assume o protagonismo na segunda metade entrevista. Em uma das primeiras perguntas Alckmin oferece uma explicação para as dificuldades de se exercer a oposição no Brasil, diz o governador:
Não é fácil ser oposição no Brasil. Num país cujo sistema político é montado de tal maneira que não há salvação fora do governo. O que todo o mundo quer é aderir ao governo, porque a realpolitik estabelece isto, a política é feita incrustada na máquina pública, mas o PSDB fará oposição.
É possível que os regimentos e regulamentações das ações políticas no Brasil tenham peculiaridades que dificultem a atividade oposicionista, entretanto não a impede, pois o PT realizou uma oposição ferrenha ao governo FHC como todos sabem. Não estamos aqui falando da forma ou dos critérios da oposição, mas das possibilidades reais e legais de realizá-la. Se o PT encontrou espaço para fazer oposição, porque a atual oposição não consegue?
Em nenhuma democracia do mundo a oposição conta com a máquina pública. A máquina pública é gerenciada pelo partido de situação, que logicamente impedirá que os partidos que desejam substituí-lo sejam beneficiados por ela. Entende-se que ter a máquina pública a seu favor facilita as atividades, mas me parece inerente ao conceito de oposição saber agir sem este suporte. Pode-se interpretar as palavras de Alckmin como o que de fato acontece é que o PSDB não sabe fazer política sem a máquina pública, e neste caso, não sabe fazer oposição. Neste caso, o problema é do partido não do sistema político nacional. Se a atividade opositora deve ser independente da máquina pública porque todo mundo quer aderir ao governo, conforme diz Alckmin? Considerando que a não disponibilização da máquina pública é uma premissa de ser oposição, poderia entender-se que os opositores buscam manter-se sob o manto governamental não para exercer a oposição, mas pela continuidade dos benefícios pessoais que dele possam usufruir. Não me parece que este seja o caso do governador, mas entendo oportuno atentar para esta possível interpretação do fato.
Alckmin diz no final da resposta que o PSDB fará oposição, aqui cabe a pergunta: Como o PSDB fará oposição sem a máquina pública? Sugerimos que os atuais partidos de oposição busque alternativas de ação, como por exemplo criar canais permanentes de comunicação com a grande mídia, promover trabalhos de base, agilizar a organização interna, etc....
A forma de realizar oposição é outro tema recorrente nas declarações oposicionistas. Sobre este assunto Alckmin afirma: Nós somos oposição, vamos exercê-la, apenas não fazemos de forma raivosa como o PT fazia na época do FHC.
O eleitorado do PSDB nunca pediu ao partido que fizesse uma oposição raivosa, e sim que faça oposição, por conseguinte não tem sentido que os políticos do partido sigam repetindo à exaustão que não farão este tipo de oposição. O que o eleitorado do PSDB solicita é uma oposição firme, profissional e permanentemente atenta. Nenhuma destas características relaciona-se com raivosa. A insistência neste argumento parece ser apenas mais uma justificativa vazia de por que o PSDB não exerce seu dever e direito democrático. A oposição que queremos é que o partido se entregue unido à tarefa oposicionista, tenha um discurso claro, vá direto ao assunto, diga com todas as letras o que e porque esta criticando/fiscalizando, quais são as propostas do partido em cada caso. Para tanto, não é preciso ser desrespeitoso, ofensivo e muito menos ir contra o que é bom para o país. As ações positivas realizadas pela situação não necessita ser tema do discurso oposicionista, a situação se encarregará de divulgá-lo e enfatizar suas qualidades. A oposição deve ser onipresente, expressar seu parecer com relação a todos os assuntos sobre os quais o governo mereça ser fiscalizado e criticado. Atualmente, assim como nos últimos oito anos, não foi esta a postura de nenhum partido da oposição.
Seguindo a entrevista Alckmin visa explicar qual é sua função como governador de oposição dentro do sistema federativo brasileiro:
Uma coisa é a luta política, outra coisa é o governo. O Brasil é uma república federativa. A federação impõe uma cooperação dos entes federados. Então eu como governador de São Paulo não fui eleito para fazer oposição ao governo Dilma. Eu tenho o dever de ter uma cooperação com o governo federal independente de sigla partidária. Agora, sou do partido de oposição, donde tiver o PT nós vamos estar do outro lado.
Aqui, sob meu ponto de vista, o governador demonstra que tem uma visão equivocada sobre sua postura política. Entendo que no momento em que separa política e governo ele exige que a pessoa que encarna esta simultaneidade opte por uma das posições, ou política, ou governo. Assim, ele como governador de um partido de oposição ao governo federal não tem como conciliar as duas posições, ou se alia ao Planalto para governar, ou age como oposição. Segundo o governador não há possibilidade de harmonizar ambas as posições. Neste caso, Alckmin esta dizendo que no Brasil os governadores de oposição não devem opor-se politicamente ao governo federal. Conseqüentemente, os partidos de oposição no país estão destinados a estarem definitivamente divididos, os governadores falarão bem do presidente e os demais deverão criticá-lo e fiscalizar-lo. Em termos de mensagem ao povo/eleitorado como funciona esta divisão, na qual parte do partido tem um discurso e a outra parte tem um discurso inverso? Como funciona um partido no qual parte do partido elogia o governo e a outra parte critica? Com este perfil o partido oferecerá uma mensagem clara ao povo/eleitor? Esta é situação atual, por um lado Alckmin, Anastásia, Perillo são só elogios ao governo e a presidente, por outro Serra e Dias criticam. Qual é a ideologia deste partido?
Me parece óbvio que, por uma questão de clareza, unidade e princípios ideológicos, aspectos fundamentais na política, um partido deve ter em todos os níveis um mesmo discurso e uma mesma posição frente aos seus eleitores e opositores. Um partido cujo seus quadros tenham discursos opostos guarda dentro de si uma contradição a qual inevitavelmente o levará ao fracasso. Portanto a questão não esta em separar as duas posições, governador e político de oposição, e sim conciliar, pois na pratica esta situação pode recair na mesma pessoa, a qual não pode abrir mão de nenhuma das duas posições. O governador, cargo da administração pública terá com o governo central uma cooperação administrativa, jamais uma submissão política, pois esta significaria uma traição a seus seguidores. No campo da administração pública ambas as esferas, estadual e federal, trabalharão em permanente colaboração visando o beneficio do povo, funções para as quais foram eleitos. No âmbito político estarão presentes as diferenças ideológicas e propositivas inerentes da oposição política. Os governadores manterão o discurso coerente com as posições de seu partido e do eleitorado que o elegeu.
Chegando ao final da entrevista o repórter perguntou qual a avaliação do cidadão Geraldo Alckmin dos primeiros 100 dias do governo Dilma. A resposta do governador foi a seguinte:
Acho que é muito cedo pra gente estar fazendo analise de governo, mas acho que ela começou bem intencionada, na política internacional corrigindo alguma coisa que precisava ser corrigido. A conversa que tivemos sobre os temas de interesse de São Paulo (...) É bom para o Brasil que ela vá bem.
Nesta resposta vejo dois aspectos a serem destacados, ambos reincidentes. Primeiro, é saber quando o PSDB vai iniciar sua oposição. Alckmin sugere inclusive na entrevista que se pode avaliar um governo apenas no seu final. Também afirma em mais de uma ocasião ser oposição, entretanto sempre encontra um motivo para não exercê-la, ou é cedo, ou ele é governador, ou devemos torcer pela presidente. Ser oposição, não é nomear-se como oposição, é exercer uma postura contraria ao governo, é fiscalizá-lo e criticá-lo aberta e diretamente. Os políticos do PSDB adiam sempre para o futuro a virtual oposição do partido, discurso este que estamos ouvindo desde o primeiro governo petista. Iniciamos há poucos meses o terceiro governo petista e o PSDB segue repetindo as mesmas justificativas para sua incompetência como oposição. Tal postura demonstra que também o PSDB não escuta seu eleitorado, esta distante de suas bases, não demonstra capacidade de autocrítica e revisão de posturas.
Em segundo lugar, mais uma vez, Alckmin vê bem o início do governo Dilma, mesmo depois de sua proposta inconstitucional para definir o salário mínimo por decreto, ou a pressão do governo para o aparelhamento da Vale Alckmin entende que a presidente esta bem intencionada. Fica difícil entender onde Alckmin e o PSDB querem chegar com discursos e posturas contraditórias, ambíguas e superficiais.
Na semana passada publicamos um artigo sobre o discurso político de Geraldo Alckmin intitulado Alckmin pisou na bola feio http://tinyurl.com/4hwmy2e No dia 29 de março último o governador foi entrevistado na rádio do Jornal Estado de São Paulo http://tinyurl.com/688bdyd e um dos temas abordado foi sua postura como oposição, o que ofereceu um rico material para apreciação de seu pensamento ao qual não pude resistir à tentação de interpretar. A seguir exponho a análise crítica realizada tendo consciência de minhas limitações, pois não sou analista ou cientista política nem estudiosa do assunto. Sempre que escrevo, o faço como uma brasileira, eleitora preocupada com os rumos que nosso país, a qual expõe suas apreciações sobre temas políticos de forma despretensiosa.
A política assume o protagonismo na segunda metade entrevista. Em uma das primeiras perguntas Alckmin oferece uma explicação para as dificuldades de se exercer a oposição no Brasil, diz o governador:
Não é fácil ser oposição no Brasil. Num país cujo sistema político é montado de tal maneira que não há salvação fora do governo. O que todo o mundo quer é aderir ao governo, porque a realpolitik estabelece isto, a política é feita incrustada na máquina pública, mas o PSDB fará oposição.
É possível que os regimentos e regulamentações das ações políticas no Brasil tenham peculiaridades que dificultem a atividade oposicionista, entretanto não a impede, pois o PT realizou uma oposição ferrenha ao governo FHC como todos sabem. Não estamos aqui falando da forma ou dos critérios da oposição, mas das possibilidades reais e legais de realizá-la. Se o PT encontrou espaço para fazer oposição, porque a atual oposição não consegue?
Em nenhuma democracia do mundo a oposição conta com a máquina pública. A máquina pública é gerenciada pelo partido de situação, que logicamente impedirá que os partidos que desejam substituí-lo sejam beneficiados por ela. Entende-se que ter a máquina pública a seu favor facilita as atividades, mas me parece inerente ao conceito de oposição saber agir sem este suporte. Pode-se interpretar as palavras de Alckmin como o que de fato acontece é que o PSDB não sabe fazer política sem a máquina pública, e neste caso, não sabe fazer oposição. Neste caso, o problema é do partido não do sistema político nacional. Se a atividade opositora deve ser independente da máquina pública porque todo mundo quer aderir ao governo, conforme diz Alckmin? Considerando que a não disponibilização da máquina pública é uma premissa de ser oposição, poderia entender-se que os opositores buscam manter-se sob o manto governamental não para exercer a oposição, mas pela continuidade dos benefícios pessoais que dele possam usufruir. Não me parece que este seja o caso do governador, mas entendo oportuno atentar para esta possível interpretação do fato.
Alckmin diz no final da resposta que o PSDB fará oposição, aqui cabe a pergunta: Como o PSDB fará oposição sem a máquina pública? Sugerimos que os atuais partidos de oposição busque alternativas de ação, como por exemplo criar canais permanentes de comunicação com a grande mídia, promover trabalhos de base, agilizar a organização interna, etc....
A forma de realizar oposição é outro tema recorrente nas declarações oposicionistas. Sobre este assunto Alckmin afirma: Nós somos oposição, vamos exercê-la, apenas não fazemos de forma raivosa como o PT fazia na época do FHC.
O eleitorado do PSDB nunca pediu ao partido que fizesse uma oposição raivosa, e sim que faça oposição, por conseguinte não tem sentido que os políticos do partido sigam repetindo à exaustão que não farão este tipo de oposição. O que o eleitorado do PSDB solicita é uma oposição firme, profissional e permanentemente atenta. Nenhuma destas características relaciona-se com raivosa. A insistência neste argumento parece ser apenas mais uma justificativa vazia de por que o PSDB não exerce seu dever e direito democrático. A oposição que queremos é que o partido se entregue unido à tarefa oposicionista, tenha um discurso claro, vá direto ao assunto, diga com todas as letras o que e porque esta criticando/fiscalizando, quais são as propostas do partido em cada caso. Para tanto, não é preciso ser desrespeitoso, ofensivo e muito menos ir contra o que é bom para o país. As ações positivas realizadas pela situação não necessita ser tema do discurso oposicionista, a situação se encarregará de divulgá-lo e enfatizar suas qualidades. A oposição deve ser onipresente, expressar seu parecer com relação a todos os assuntos sobre os quais o governo mereça ser fiscalizado e criticado. Atualmente, assim como nos últimos oito anos, não foi esta a postura de nenhum partido da oposição.
Seguindo a entrevista Alckmin visa explicar qual é sua função como governador de oposição dentro do sistema federativo brasileiro:
Uma coisa é a luta política, outra coisa é o governo. O Brasil é uma república federativa. A federação impõe uma cooperação dos entes federados. Então eu como governador de São Paulo não fui eleito para fazer oposição ao governo Dilma. Eu tenho o dever de ter uma cooperação com o governo federal independente de sigla partidária. Agora, sou do partido de oposição, donde tiver o PT nós vamos estar do outro lado.
Aqui, sob meu ponto de vista, o governador demonstra que tem uma visão equivocada sobre sua postura política. Entendo que no momento em que separa política e governo ele exige que a pessoa que encarna esta simultaneidade opte por uma das posições, ou política, ou governo. Assim, ele como governador de um partido de oposição ao governo federal não tem como conciliar as duas posições, ou se alia ao Planalto para governar, ou age como oposição. Segundo o governador não há possibilidade de harmonizar ambas as posições. Neste caso, Alckmin esta dizendo que no Brasil os governadores de oposição não devem opor-se politicamente ao governo federal. Conseqüentemente, os partidos de oposição no país estão destinados a estarem definitivamente divididos, os governadores falarão bem do presidente e os demais deverão criticá-lo e fiscalizar-lo. Em termos de mensagem ao povo/eleitorado como funciona esta divisão, na qual parte do partido tem um discurso e a outra parte tem um discurso inverso? Como funciona um partido no qual parte do partido elogia o governo e a outra parte critica? Com este perfil o partido oferecerá uma mensagem clara ao povo/eleitor? Esta é situação atual, por um lado Alckmin, Anastásia, Perillo são só elogios ao governo e a presidente, por outro Serra e Dias criticam. Qual é a ideologia deste partido?
Me parece óbvio que, por uma questão de clareza, unidade e princípios ideológicos, aspectos fundamentais na política, um partido deve ter em todos os níveis um mesmo discurso e uma mesma posição frente aos seus eleitores e opositores. Um partido cujo seus quadros tenham discursos opostos guarda dentro de si uma contradição a qual inevitavelmente o levará ao fracasso. Portanto a questão não esta em separar as duas posições, governador e político de oposição, e sim conciliar, pois na pratica esta situação pode recair na mesma pessoa, a qual não pode abrir mão de nenhuma das duas posições. O governador, cargo da administração pública terá com o governo central uma cooperação administrativa, jamais uma submissão política, pois esta significaria uma traição a seus seguidores. No campo da administração pública ambas as esferas, estadual e federal, trabalharão em permanente colaboração visando o beneficio do povo, funções para as quais foram eleitos. No âmbito político estarão presentes as diferenças ideológicas e propositivas inerentes da oposição política. Os governadores manterão o discurso coerente com as posições de seu partido e do eleitorado que o elegeu.
Chegando ao final da entrevista o repórter perguntou qual a avaliação do cidadão Geraldo Alckmin dos primeiros 100 dias do governo Dilma. A resposta do governador foi a seguinte:
Acho que é muito cedo pra gente estar fazendo analise de governo, mas acho que ela começou bem intencionada, na política internacional corrigindo alguma coisa que precisava ser corrigido. A conversa que tivemos sobre os temas de interesse de São Paulo (...) É bom para o Brasil que ela vá bem.
Nesta resposta vejo dois aspectos a serem destacados, ambos reincidentes. Primeiro, é saber quando o PSDB vai iniciar sua oposição. Alckmin sugere inclusive na entrevista que se pode avaliar um governo apenas no seu final. Também afirma em mais de uma ocasião ser oposição, entretanto sempre encontra um motivo para não exercê-la, ou é cedo, ou ele é governador, ou devemos torcer pela presidente. Ser oposição, não é nomear-se como oposição, é exercer uma postura contraria ao governo, é fiscalizá-lo e criticá-lo aberta e diretamente. Os políticos do PSDB adiam sempre para o futuro a virtual oposição do partido, discurso este que estamos ouvindo desde o primeiro governo petista. Iniciamos há poucos meses o terceiro governo petista e o PSDB segue repetindo as mesmas justificativas para sua incompetência como oposição. Tal postura demonstra que também o PSDB não escuta seu eleitorado, esta distante de suas bases, não demonstra capacidade de autocrítica e revisão de posturas.
Em segundo lugar, mais uma vez, Alckmin vê bem o início do governo Dilma, mesmo depois de sua proposta inconstitucional para definir o salário mínimo por decreto, ou a pressão do governo para o aparelhamento da Vale Alckmin entende que a presidente esta bem intencionada. Fica difícil entender onde Alckmin e o PSDB querem chegar com discursos e posturas contraditórias, ambíguas e superficiais.
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